sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Olhos fosforescentes


Numa noite qualquer, sem algum motivo aparente ele acordou. Completamente sem sono sentou-se numa cadeira de balanço na varanda da sua casa. Então procurou com o olhar, qualquer coisa que lhe proporcionasse algum tipo de distrair. Olhou no céu, várias estrelas cadentes rodeando uma lua cheia cor de prata, brilhando faceira naquela madrugada. Apercebeu-se que havia deixado o radinho de pilha ligado, e escutou a voz dolente de uma mulher cantando algo como se fosse um blues. Deixou-se levar pela voz melancólica da cantora, e numa fração de segundo fechou os olhos. Quando tornou a abri-los, se deu conta de que seu amante também estava sentado numa outra cadeira de balanços, roendo as unhas e com os olhos fosforescentes como os olhos de um gato na escuridão. Arrebatado pelo terror e impotência, ele reconheceu naquele mesmo instante no seu companheiro o motivo que os fez fugirem da cidade natal, Macondo, e se isolarem na choupana encerrada no meio da floresta que ora vivem. Era a peste da insônia, essa doença que aos poucos foi se alastrando até assolar a cidade inteira. No princípio ninguém sem importou, até ficaram contentes de não poder dormir, pois assim a vida rendia mais. Mas ele sabia que a manifestação mais crítica da peste da insônia não era a impossibilidade de dormir, mas sim o esquecimento. Pois uma vez o doente se acostumando a vigília, começavam-se a sumirem as lembranças da infância, o nome e noção das coisas, a identidade das pessoas e por fim a consciência de si próprio. Até que o convalescente se imergisse numa espécie de idiotice sem passado. Temendo essa doença os dois então, refugiaram-se dentro de um bosque selvagem. Mas de nada adiantou, pois já estavam contaminados. Ele passou o resto da noite observando ora a lua, ora o seu amado, que se encontrava num estado que ele mesmo depois de tanto tempo vivendo juntos, não reconhecia. Pela manhã os dois ainda sentados nas cadeiras, olhavam o sol saindo tímido, ou para os roseirais refletindo no orvalho os raios matinais, como se ele fosse o iluminado. Sol esse que os acompanhou por várias semanas, iluminando as manhãs repetitivas do casal, que buscava uma solução contra o esquecimento. Tentaram vários métodos como chás, ervas, bebidas, e conversas intermináveis à varanda da casa, mas absolutamente nada adiantava. E como passaram a ter dificuldade para elaborar os medicamentos caseiros por não se lembrarem os nomes dos objetos, passaram a escrever os nomes deles em pedaços de papel e colar nos objetos correspondentes. E um dia andando na floresta procurando novas plantas para uma infusão, ele viu uma linda flor vermelha radiante cheia de pequenos espinhos no seu talo, ele reconheceu flor, mas não se lembrou o nome dela, e depois de muito pensar, deduziu que a flor se chamava “Amor”, e assim escreveu em várias pétalas dessa flor a palavra AMOR. Colheu uma delas, e voltou pra casa. Ao chegar percebeu um rapaz estranho na barraca, ficou com medo dele, e se armou com um pedaço de pau para expulsar o intruso. O intruso por outro lado, também se armou com um pedaço de pau e pediu para que ele se retirasse pois aquela cabana era lar dele com seu amante. O outro respondeu que ele estava enganado, pois ele era o verdadeiro dono do casebre onde vivia com seu amante. Os dois percebendo-se que não eram ameaças decidiram baixar as armas, e sentaram no chão da varanda para conversar. Cada um falou de si, e das qualidades que o fizeram se apaixonar cada um pelos seus respectivos amantes. Cada um ficou emocionado com a história do outro. E só então se deram conta que havia escurecido, e que os companheiros de cada um não haviam retornado, cogitaram a possibilidade deles terem se perdido na floresta. Decidiram ir dormir, mas não conseguiram. Então ele se lembrou que havia colhido uma flor, retirou da bolsa e mostrou ao outro, que achou belíssima. Ele disse que a flor se chamava amor, e percebendo que o companheiro tinha ficado encantado, decidiu lhe dar de presente o amor. Então repentinamente os dois passaram a se desejar, e não conseguindo mais conter esse forte sentimento, entregaram-se a longos beijos e carícias. Pela manhã, os dois tomados por remorso de terem traído a cada um o seu amante, e cheios de vergonha, saíram as escondidas da barraca e cada um tomou direção oposta. Mergulhados numa ausência instável, erraram solitariamente por florestas, veredas, montanhas, e cidades por muitos anos. Até que numa manhã qualquer sentaram-se nas areias duma mesma praia, e começaram a conversar como dois estranhos. Cada um falou de si, e lembraram fracamente que cada um havia amado um rapaz num tempo muito distante. Cada um ficou emocionado com a história do outro. Até que um deles, mudando de assunto, perguntou como se chamava àquele grande lago à frente deles, mas nenhum dos dois lembrava o nome. Até que os sons das ondas sinfonicamente brindando os ouvidos e corações deles, os fez lembrarem juntos, que aquele grande lago, se chamava “Amor”.

Pré-texto: MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. São Paulo, Record, 1976.

Carbono





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Essencial
à vida,
não como me é
a água,
mas ainda sim
o reconheço.
Respiração,
fotossíntese,
e até petróleo.
Muito bom,
mas não precisa
de tanto
que a própria natureza
não possa reutilizar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Do trabalho que enobrece e dignifica


Porque eu me dissimulo
e me faço de besta,
Eles me acham e me chamam
de grande besta.
E eles só me querem
para ser a besta de carga.
Mas seu eu realmente fosse
uma besta,
eles não quereriam mais.