terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Dois mil inove em resumo


Fazendo um balanço tradicional (e inevitável)
do ano que me passou (e já pensando no que virá),
de fato como diz o slogan (aquele do Banco)
foi um ano de profundas inovações: (e renovações também)
veio o primeiro emprego (um que podia ser chamado assim),
com oito horas de ocupação por dia (nem tão ocupadas assim),
achei que deveria também ocupar o resto da vida (como se não estivesse)
então larguei uma relação normal, chata e monótona (era que eu achava),
pra me jogar noutra relação duas semanas depois (que era ainda pior),
então fui percebendo o quão antipático eu era (ainda sou um pouquinho).
Falando em o que sou (olha a pretensão falando alto)
decidi ser muito mais franco comigo (e menos com as pessoas),
por isso passei a falar bem menos (e escrever muito mais),
aí nasceu um certo blog (duma gravidez de risco),
que serviu de suporte (uma viga de aço praticamente)
para um monte de coisas que eu queria dizer (e acabei escrevendo),
então percebi que tinha uma habilidadezinha para escrita (continua a modéstia),
e com a boa escrita vieram pessoas (chegaram que eu nem percebi)
que ficaram tão próximas do coração (apesar da distância geográfica).
Então essas pessoas transformaram-se em amigos (o que não foi difícil)
e nas palavras que trocamos (as palavras transformaram-se em sentimentos)
fez-me aflorar novos sentidos (que na verdade eram antigos)
e assim re-descobri a força e coragem (e venci a tristeza e loucura)
então oito meses depois (mas que pareceram 8 anos)
voltei para a relação do início (ou reiniciei a relação),
já não achando mais normal, chata ou monótona (isso na verdade era eu),
por isso pedi desculpas (e as recebi também),
e me dediquei a tratar as feridas (que não eram poucas),
daquele Grande Amor (ainda bem que não era tarde demais).
Aí percebi a minha magalomania (só EU não tinha percebido)
com isso também descobri uma certa profissão (que virou objetivo de vida),
então esqueci a arte (pelo menos momentaneamente)
mas nem por isso deixei de aceitar (e fazer por conseguinte)
minha estréia no Da Paz e na tela grande (fechando com chave de ouro).
E assim, de forma concisa (ou seria confusa?)
termina aqui meu resumo... (outro só ano que vem!)

A todos que leram este blog desejo um feliz 2010. Que seja do prólogo ao epílogo deste novo ano um conto cheio de alegria, paz e saúde; e o clímax de sua historia seja felicidade e sucesso que você irá resumir num sorriso!
FELIZ ANO NOVO!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diálogo Truncado


- O que você tem hoje?
- Nada não, só estou um pouco triste.
- Triste por quê?
- Ontem minha avó caiu da escada e eu acho que vai demorar um pouco para ela ficar boa.
- Eu não sabia.
- É, foi uma queda e tanto, ela estava distraída e pisou em falso num dos degraus, não sei muito bem como aconteceu, foi muito rápido, acho que ela estava meio sonolenta, devia estar dormindo, levantou pra fazer xixi e pimba! Caiu da escada.
- Que azar!
- Não, não fale azar! Fale que falta de sorte!
- Que falta de sorte da sua avó, hein?
- Sim, que falta de sorte...
- Pois é.

- E você?
- Eu o que?
- Você está bem?
- Acho que estou bem, se não fosse por essa notícia agora.
- Você realmente gosta tanto da minha avó assim?
- Eu nem bem conheço a sua avó.
- Então não fique triste pelo acontecido, você não tem nada a ver com isso.
- É que tenho uma imensa pena das velhinhas que caem de escadas; diga-me uma coisa, ela rolou ou foi se batendo na mesma posição até o último degrau?
- Foi cambaleante, não chegou a dar uma cambalhota inteira, mas se bateu bastante.
- Lamentável.
- E antes de chegar ao último degrau ela gritou: eureca!
- Foi?
- Sim, porque fez uma grande descoberta enquanto sofria o acidente.
- Ela deve ter batido muitas vezes a cabeça e isso deixou seus neurônios funcionando de maneira mais brilhante.
- Pode ser, os médicos não falaram nada a respeito.
- E qual foi a grande descoberta?
- Não sabemos, ela entrou em coma antes de nos dizer.
- É uma pena mesmo, ainda mais sabendo que nos dias de hoje a venda de uma grande descoberta vale muito dinheiro.
- Sim, eu também pensei nisso, acho que este é o maior motivo da minha tristeza.
- Sua família é muito pobre?
- É
- Muito pobre como?
- Dificilmente meu pai se senta à mesa para comer com todo mundo e meu irmão tem muitas namoradas, minha mãe adora assistir as novelas do canal católico, meu avô tem uma coleção de latinhas de refrigerante antigas e minha avó estava pegando as prestações do clube da pré-morte de um cemitério para terceira idade.
- Muito pobre.
- Sim, e a pior de todas é a minha pobreza.
- E qual é?
- Eu escrevo cartas de amor para um antigo namorado que sumiu no mundo.
- E ele as recebe?
- Sim, onde quer que esteja. Ele está juntando inspiração para escrever uma carta-resposta me perdoando.
- O que você fez para precisar se perdoada?
- Quando resolveu ir embora, eu escondi o único mapa que ele tinha.
- E por que ele resolveu ir embora?
- Porque é um crápula que estava apaixonado por uma aeromoça.
- Você é aeromoça?
- Não.
- Bom.
- Mas ele não tinha dinheiro para segui-la de avião, então foi de asa delta.
- Entendo.
- Todo dia eu mando uma carta pra ele, comprei um pombo para voar bem alto e amarei na patinha dele uma espécie de fio que leva uma bolsinha, é lá que eu ponho a mensagem. O pombo sempre vem sem nada amarrado e com a imagem dele nos olhos.
- É um bom pombo.
- Sim, é.
- Espero que sua avó fique bem.
- Eu também
- Agora preciso ir.
- Eu também.
- Então foi muito bom falar com você.
- Igualmente.
- Igualmente.
- Você é sempre assim, de poucas palavras?


"Você não entende que me atirei no abismo do teu coração e me fiz testemunha da mais ingrata verdade. Assim eu me fiz durante a vida toda, me guiando cada vez mais fundo pra queda e quando quis voltar, já era tarde demais, não existia uma corda para a subida, fiquei preso nos laços do mais profundo dos teus sonhos inertes e me perdi feito um anjo caído na imensidão dos teus abraços de despedidas!"
.
- Eu sou um pouco tímido sempre.

Paloma Amorim

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sonho de Consumo ou Cafonismo de Estante

Eu quero!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Conjuga-me ou perco-me



Por mais que eu crescesse
Eu perco

E por mais inefável que fosse o sentimento
Tu perco

E por mais que eu tentasse esquecer e dissimular
Ele perco

E por mais que eu quisesse uma outra vez
Nós perco

E por mais que eu me confundisse
Vós perco

E por mais que agora não me pareça mais tão nefasto
Eles perderei

em 22/04/2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Eu sou um cavalheiro!"

Entre cavalheiros e trogloditas,
seguranças e anjinhos,
matutos e sátiros,
reis e soldados,
pais intransigentes e amados apaixonados;
sempre há um ponto de convergência:
A essência do ser!
E por mais que se mostrasse
diferente em cima do palco,
ainda sim era quem era.

O mesmo ser arguto e sensível,
eloqüente e metódico,
chato e amável,
meio que disperso e muito carismático.

Hoje, quatro de novembro
de dois mil e nove,
na juventude de seus tristes
vinte aninhos,
ele foi pra longe de nossas vistas
mas para mais perto do coração,
de onde nunca, nunquinha sairá.

Sr. Manduca, Tadeu de Albuquerque, Petrúquio,
Herodes Antipas e Rei-Mago Gaspar,
sempre serás esses em minha memória.
Ator, Estudante, Escritor,
Amigo, Companheiro e João Lucas Guimarães,
sempre será ESSE em meu coração.

Adeus, meu amigo!
Não!
Até a eternidade, meu amigo!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Olhos fosforescentes


Numa noite qualquer, sem algum motivo aparente ele acordou. Completamente sem sono sentou-se numa cadeira de balanço na varanda da sua casa. Então procurou com o olhar, qualquer coisa que lhe proporcionasse algum tipo de distrair. Olhou no céu, várias estrelas cadentes rodeando uma lua cheia cor de prata, brilhando faceira naquela madrugada. Apercebeu-se que havia deixado o radinho de pilha ligado, e escutou a voz dolente de uma mulher cantando algo como se fosse um blues. Deixou-se levar pela voz melancólica da cantora, e numa fração de segundo fechou os olhos. Quando tornou a abri-los, se deu conta de que seu amante também estava sentado numa outra cadeira de balanços, roendo as unhas e com os olhos fosforescentes como os olhos de um gato na escuridão. Arrebatado pelo terror e impotência, ele reconheceu naquele mesmo instante no seu companheiro o motivo que os fez fugirem da cidade natal, Macondo, e se isolarem na choupana encerrada no meio da floresta que ora vivem. Era a peste da insônia, essa doença que aos poucos foi se alastrando até assolar a cidade inteira. No princípio ninguém sem importou, até ficaram contentes de não poder dormir, pois assim a vida rendia mais. Mas ele sabia que a manifestação mais crítica da peste da insônia não era a impossibilidade de dormir, mas sim o esquecimento. Pois uma vez o doente se acostumando a vigília, começavam-se a sumirem as lembranças da infância, o nome e noção das coisas, a identidade das pessoas e por fim a consciência de si próprio. Até que o convalescente se imergisse numa espécie de idiotice sem passado. Temendo essa doença os dois então, refugiaram-se dentro de um bosque selvagem. Mas de nada adiantou, pois já estavam contaminados. Ele passou o resto da noite observando ora a lua, ora o seu amado, que se encontrava num estado que ele mesmo depois de tanto tempo vivendo juntos, não reconhecia. Pela manhã os dois ainda sentados nas cadeiras, olhavam o sol saindo tímido, ou para os roseirais refletindo no orvalho os raios matinais, como se ele fosse o iluminado. Sol esse que os acompanhou por várias semanas, iluminando as manhãs repetitivas do casal, que buscava uma solução contra o esquecimento. Tentaram vários métodos como chás, ervas, bebidas, e conversas intermináveis à varanda da casa, mas absolutamente nada adiantava. E como passaram a ter dificuldade para elaborar os medicamentos caseiros por não se lembrarem os nomes dos objetos, passaram a escrever os nomes deles em pedaços de papel e colar nos objetos correspondentes. E um dia andando na floresta procurando novas plantas para uma infusão, ele viu uma linda flor vermelha radiante cheia de pequenos espinhos no seu talo, ele reconheceu flor, mas não se lembrou o nome dela, e depois de muito pensar, deduziu que a flor se chamava “Amor”, e assim escreveu em várias pétalas dessa flor a palavra AMOR. Colheu uma delas, e voltou pra casa. Ao chegar percebeu um rapaz estranho na barraca, ficou com medo dele, e se armou com um pedaço de pau para expulsar o intruso. O intruso por outro lado, também se armou com um pedaço de pau e pediu para que ele se retirasse pois aquela cabana era lar dele com seu amante. O outro respondeu que ele estava enganado, pois ele era o verdadeiro dono do casebre onde vivia com seu amante. Os dois percebendo-se que não eram ameaças decidiram baixar as armas, e sentaram no chão da varanda para conversar. Cada um falou de si, e das qualidades que o fizeram se apaixonar cada um pelos seus respectivos amantes. Cada um ficou emocionado com a história do outro. E só então se deram conta que havia escurecido, e que os companheiros de cada um não haviam retornado, cogitaram a possibilidade deles terem se perdido na floresta. Decidiram ir dormir, mas não conseguiram. Então ele se lembrou que havia colhido uma flor, retirou da bolsa e mostrou ao outro, que achou belíssima. Ele disse que a flor se chamava amor, e percebendo que o companheiro tinha ficado encantado, decidiu lhe dar de presente o amor. Então repentinamente os dois passaram a se desejar, e não conseguindo mais conter esse forte sentimento, entregaram-se a longos beijos e carícias. Pela manhã, os dois tomados por remorso de terem traído a cada um o seu amante, e cheios de vergonha, saíram as escondidas da barraca e cada um tomou direção oposta. Mergulhados numa ausência instável, erraram solitariamente por florestas, veredas, montanhas, e cidades por muitos anos. Até que numa manhã qualquer sentaram-se nas areias duma mesma praia, e começaram a conversar como dois estranhos. Cada um falou de si, e lembraram fracamente que cada um havia amado um rapaz num tempo muito distante. Cada um ficou emocionado com a história do outro. Até que um deles, mudando de assunto, perguntou como se chamava àquele grande lago à frente deles, mas nenhum dos dois lembrava o nome. Até que os sons das ondas sinfonicamente brindando os ouvidos e corações deles, os fez lembrarem juntos, que aquele grande lago, se chamava “Amor”.

Pré-texto: MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. São Paulo, Record, 1976.

Carbono





.
Essencial
à vida,
não como me é
a água,
mas ainda sim
o reconheço.
Respiração,
fotossíntese,
e até petróleo.
Muito bom,
mas não precisa
de tanto
que a própria natureza
não possa reutilizar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Do trabalho que enobrece e dignifica


Porque eu me dissimulo
e me faço de besta,
Eles me acham e me chamam
de grande besta.
E eles só me querem
para ser a besta de carga.
Mas seu eu realmente fosse
uma besta,
eles não quereriam mais.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Cnidário o seu amor



O cnidoblasto disparou vorazmente,
e sem erro, o cnidocílio me tocou,
espalhando o líquido urticante.
Porém, de momento não senti,
a queimadura mesmo
só veio seis meses depois.
E está doendo...

Mas assim mesmo,
jura, jura
cnidário o seu amor,
cnidário o seu amor,
cnidário, cnidário, cnidário, cnidário.

PS.: Faculdades mentais em estado quiescente quando escrevi isso.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

As Correntes

Quebraram-se as correntes da incerteza
e os elos de dúvidas e de desconfianças.
Quem se sentia preso, agora se sente livre
numa liberdade condicionada, injusta e normal.
A procura de uma nova prisão, uma nova corrente
e se trancar novamente numa saraivada de pensamentos,
às vezes maldosos e às vezes honrados,
mas sempre pensamentos e pensamentos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Algum tempo atrás eu aprendi que é mais fácil tentar inverter a situação radicalmente, do que tentar reverter a situação racionalmente.


- Ainda bem que alguns preferem tomar o caminho mais difícil.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Cortei as asas tuas

Falta tua muito sinto,
tua ausência, ela tanto seja
não culpa ou mea culpa,
gaiola agora é teu recinto
e me é vontade vieja.

Cortei as asas tuas,
mas a cortar deixastes,
agora me culpo e me culpe,
não deixas que se imiscuas
nem quebras as hastes.

Não te escondas tanto
instável seja, e aceita
minhas desculpas por tuas culpas,
e amar irei teu canto
quando distância for estreita.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A caixa

Quanta doçura e quanta fragilidade
vejo no teu rosto,
que agora se torna estranho,
a ti mesmo,
pois a mim sempre o foi.
Quanta gravidade no gesto,
que te é tão inerente,
tão caro,
mas que é pra mim tão vazio.

Como podes confiar em mim
assim tão facilmente?
Não sabes o meu passado
e muito menos o meu presente,
que te dou como presente
em desgostos, tristezas e mágoas
embrulhados em papel bonito
amarrados com uma fita
da cor que te é favorita.
.
Talvez por isso,
não abras tua prenda.
Pois que tua inanidade
te faz se encantar
somente do embrulho
e julgas já saber o que há dentro.
.
Tu que te sentas e te deitas
sobre tua própria concuspicência,
quando levantares e abrires
o teu presente,
verás que eu sou tão ruim
quanto o pior do pior de ti mesmo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Yasuna, vive para sempre

Yasuna gerou saudades
e solidão por um longo tempo.
Apesar de sempre estar aqui perto
estava sempre tão distante.
De modo que num divórcio
muito injusto,
foi enclausurado
na prisão dos esquecidos.
Hoje dia sete de julho,
pode enfim morrer em paz.
Mesmo depois de infinitas horas
de isolamento e agonia,
estava contente
por ter completado o seu fanado.
De dentro da sua carcaça
nasceu uma ave,
e mesmo novinha,
tinha a imponência de Yasuna.
Esta ave é tomada
como Rei dos Pássaros,
deitada sobre sua soberania cruciante,
é nada mais que um reflexo de Yasuna.
.
.
Foto: Fernando Paranhos

quarta-feira, 24 de junho de 2009

My personal magoeitor

Poucas ações...
Muitas ações...
Egoísmo exagerado...
Altruísmo exagerado...
Poucas palavras...
Muitas palavras...
Possessividade exagerada...
Abandono exagerado...
.
Não adianta,
de uma forma
ou de outra,
ele SEMPRE consegue!

terça-feira, 23 de junho de 2009

A falta de um riso

Tu não ris.
Sorris,
e malmente.
.
Pois que tua essência,
meditativa,
delata-se no teu contemplar
muito concentrado,
mas ao mesmo tempo
tão disperso.
E que prediz a todos,
teus tresvarios mais profundos,
frutos da rendição da tua intelecção
a um mundo despretensioso
e dele ufanizada.
.
As tuas cogitações,
em letras ou imagens, não se materializam.
Justamente,
por afluir em ti,
a comunicação, porém
tolhida pelo teu calar
coagido pelo teu desacreditar.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Tédio

Ele tem os olhos fixos, paralisados. A pele tem uma respiração própria, o suor tem o cheiro da inquietude. Freneticamente ele sacode as mãos, para, volta a sacudi-las baixa a cabeça. Agora o olhar é em todos os lugares que seu cérebro pode guardar algum tipo de distrair. Ele espera. Ora como se explodindo, ora com a paciência do resignado Jó, mas a espinha ereta como a de um samurai. Sua tez pulsando à excitação do porvir. Ele sente como se morresse a cada segundo que vai. Ele deseja como nunca o músculo bater em seu corpo como um ponto para ogum. Descansa os ombros. Quer sentir o leve. As pálpebras se dão ao cansaço:
.
- Não sei! Fiquei entendiado de repente!
.
O corpo inteiro cai pesado e desesperançoso. Mais um vez, a porta se fecha. Incredulidade, raiva e desconfiança. Depois de tantos dias de paz e guerra, de tantas horas e tantos momentos de torpor e esperança.
.
"Não sei! Fiquei entendiado de repente!"
.
Misturam-se os pensamentos latentes nos corpos correntes derramados na desertidão de cada compartimento. Água e terra, pedra e torrente. Medo, pesar, frustração, expectativas, desejos. Se esvaem as almas. Derramam-se no abandono, no esgotamento, na espera:
.
"Não sei! Fiquei entendiado de repente!" se repete na mente dele.
.
.
.
Raquel Leão & Ives Nelson

sexta-feira, 12 de junho de 2009

T como N

Um olho azul flutua na imensidão do céu rosado e
estrelas púrpuras e nuvens azuis com bolinhas amarelas
também acompanham o luar de um dia claro.

Sob a sombra de uma cerejeira,
um pequeno ser se põem a brincar
nos braços de um ser maior.

O mais alto atira o menor com toda força
para cima da copa das árvores,
e deixa que ele caia sonora e pesadamente no chão.

O pequenino morre a cada vez que se estatela no chão,
mas não demora muito, para que ele se levante,
e correndo se jogue sobre os braços do maior.

Os dois ficam nessa repetição o dia todo,
parece não ser cansativo e nem dorido.
E logo os dias viram semanas, e essas viram meses.

Três meses se passam, e eles continuam lá.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Sê paciencioso...

Queria eu, que a noite tivesse uma hora (que fosse) a mais.
E mesmo que a noite tivesse uma hora (que fosse) a mais,
Assim mesmo, eu ainda não teria um oi (que fosse) a mais.
Pois um simples ditongo,
É muito mais pesado que chegar em casa.
É muito mais difícil que tirar a roupa.
É muito mais ruim que tomar um banho.
É muito mais indesejável que deitar na cama.
E muito mais cansativo que fechar os olhos.

Agora,
Para acreditar na elegância da sua arrogância,
Na prepotência da sua "potência",
Na altivez da sua timidez,
Na meiguice da sua cafajestice,
Na mediocridade da sua humildade,
Eu preciso de muita,
Mas muita paciência.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Idiotice, essa moda pega!

Impressionante como, frequentemente, as pessoas são idiotas o bastante, ao ponto de acharem que somos idiotas o bastante pra nos fazer-mos (a nós mesmos) de bastante idiotas.

Citando um lindo poema (avise-se, que nada tem de idiota) para ilustrar esse pensamento:

eus & nós

"eu tenho que me ser
e você, você.
assim funciona desde que
quem quer que mê,
não pergunte porquê."
(Mê)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Idiossincrasia sim, mas com citação

Eu me desculpo, me acomodo e me satisfaço em pensar, que realmente, é muito mais fácil "passar de folhas a pássaros" do que "rosas a letras".

*aspas tirada de BORGES, Jorge Luis. A Busca de Averróis. in: ______. O Aleph. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras: 2008, 156 p.

A resposta de Romeu ou Mais um idiota

Primeiro sorri
Enquanto esperava
Mas você desprezava,
Apesar de escondida,
A minha fantasia
Que eu quis compartilhar.

Porém não me convenço
Enquanto não te venço
Por causa do teu olhar
Então, não penso
Eu me antecipo,
a tudo revelar.

O momento ameaça
Eu não escondo nada
Pareceu uma piada
(Porra!)
Era pr'eu me resguardar.

E ficou somente no ar...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Mito

Ele abriu os olhos. Assustado, não reconheceu o lugar. Um segundo depois lembrou-se. É esquisita essa súbita amnésia. E também é orgástica e extasiante. Alguém o tocou. Uma segunda mão também o tocou. Não via ninguém a sua frente. Ou preferia não ver. Uma terceira vez foi tocado. Escutou alguns dizeres, mas não compreendeu. Na verdade, até compreendeu, mas ignorou completamente a mensagem. Queria voltar naquele mesmo instante. Mas não sabia o caminho. As pessoas todas estavam preocupadas com o rapaz. Ele só pensava em voltar de onde acabara de chegar. Tentou uma, duas, três, quatro vezes. Sem resultado. Fechou os olhos. Sentiu um tapa no rosto. Abriu os olhos. Alguém o tocou mais uma vez. Irritou-se. Pôs-se de joelhos, com as mãos para trás e a cabeça abaixada num ângulo muito estranho. Começou a se sacudir e debater. Estava finalmente conseguindo achar o caminho. Uma mulher deu um grito. Por causa disso ele quase se perdeu. Porém se concentrou no objetivo. Os olhos ficaram fixo, os membros rígidos e a língua enrolada. Deu um solavanco e caiu de peito no chão, imergindo o rosto no próprio sangue. Conseguiu finalmente voltar. Um senhor idoso, compadecido, acendeu uma vela, e colocou ao lado do cadáver.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Três Caminhos

.
No primeiro os pássaros cantavam
As flores exalavam perfume inebriante
As plantas mostravam um verde brilhante
E a luz do sol irradiava e refletia
Mas as harpias mataram os pássaros
Os bubalinos pisaram nas flores
Os gafanhotos comeram as palntas
E a luz do sol se encobriu por nuvens negras
.
No segundo os pássaros também eram presas
As flores ainda eram vulneráveis
As plantas igualmente eram alimento
E a luz do sol ainda era incerta
Mas as harpias nem sempre sabiam caçar
Os bulinos nem sempre andavam em meio as flores
Os gafanhotos nem sempre estavam com fome
E as nuvens sempre se dissipavam
.
No terceiro nunca se viu um pássaro
As flores nunca existiram, pois
As plantas nunca enraizaram
E a luz da lua iluminava imponente, pois era sempre noite
Mas as harpias já estavam à espera do primeiro pássaro
Os bulinos impacientemente, já aguardavam a primeira flor brotar
Os gafanhotos já estavam famintos esperando a primeira semente germinar
E as nuvens já encobriam até a luz da lua

Da fome dá sede...


Heloiana estava com muita fome e um pouco de sede. Fazia meses que não comia nada, e unicamente caminhava por entre o gramado, e bebia água de fontes que ocasionalmente surgiam aqui ou ali, naquele jardim. Em alguns momentos ela se desesperava, e em outros estava calma e paciente, mesmo depois de quase dois dias andando pelo matagal. Passava por frutas maduras e suculentas que se exibiam nas várias árvores, mas não as comia, satisfeita somente com a água da fonte. Porém chegou um momento, em que as as fontes, as cachoeiras e os rios não mais surgiram pela floresta, porém a chuva, essa sempre vinha pela tarde. Heloiana ficou agora com muita sede, foram tantas horas sem tomar nada que até a fome passou. E então ela teve frio por causa de uma chuva noturna que não parava. Ensopada, desesperada, e ofusacada pela luz do sol, procurava no meio da floresta uma fonte para matar sua sede incontrolável, uma sede que já durava cinco minutos. Ficou com medo e se abrigou do dilúvio debaixo de uma bananeira. Enquanto não parava a torrente, se distraiu diversas vezes pela água escorrendo por entre um cacho de bananas madurinho. Nem comida, nem água e nem esperança. Não via nada, ou preferia não ver. Quem sabe?

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Inspiração

Os blogs, ao que (a)parecem, acontecem ao acaso...