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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Máquina...



Gotas de suor salgado escorrem pelo braço e gotejam levemente uma roda dentada. Uma correia em plena fúria do movimento toca suavemente o pano do uniforme. Um pouco de graxa preta e gordurosa se esconde entre uma unha e um dedo. Um arranhão faz um detalhe diferente num capacete amarelo. Uma porca caída no chão se esconde embaixo de uma bancada. Um parafuso torto jogado de qualquer jeito no canto da mesa. Um guarda-chuva preto fechado encostado do lado de uma chapa de ferro. Uma janela de vidro toda engordurada e suja. Uma fita zebrada deplorável amarrada em um parapeito de ferro carcomido de ferrugem. É uma máquina! Máquina! Máquina! Máquina! Máquina! Máquina!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

"A Hora da Estrela"



Quando eu tinha 6 anos, assisti um filme da turma da Mônica chamado "A Estrelinha Mágica",  onde Mônica e seus amigos encontravam por acaso no chão uma estrela que havia caído do céu. Desde o momento que vi esse filme cismei que iria também encontrar uma estrela assim, meio que caída no chão. Então observava muito o céu para ver estrelas cadentes. Certa noite, estava à janela de casa ocupado no exercício de olhar para o espaço a procura de estrelas cadentes, notei que no horizonte havia muitas nuvens laranjas que denunciavam uma chuva noturna. Então olhava para o alto quando uma estrela cortou o céu em direção ao horizonte, ao mesmo tempo em que um relâmpago ascendeu por trás de uma nuvem. Pronto! Foi o suficiente para me convencer que a estrela tinha caído lá, e que muito provavelmente havia explodido. Quis ir lá no meio da noite procurar a estrela, mas como toda criança, fui impedido por um adulto. Quando eu já com 12 anos, fazendo o ensino fundamental, era alvo eterno dos meninos do fundão da minha turma. Não era só porque eu era CDF, mas porque também era NERD, pois usava aparelho extra-bucal, óculos fundo-de-garrafa e botas ortopédicas. Era por isso! Além de ouvir todo tido de gozação e apelido, tinha que também aguentar as porradas que os moleques me davam. O único momento em que todos se tornavam meus amigos, era justamente em dia de prova. E eu, para me sentir a estrela da classe, me prestava a passar cola para todos os meu inimigos. Passada a prova, tudo voltava ao normal, e eu voltava a ser o velho fracassado de sempre. Um dia, numa prova de história, eu tive que passar a resposta de uma questão que precisava dissertar bastante sobre o assunto, então o pedaço de papel que eu usei para escrever a resposta ficou um pouco grande. Quando eu estava acabando de escrever, notei que a professora estava do meu lado me observando. Eu, quase sem pensar, embolei o papel e engoli, assim teria destruída a prova de que eu estava colando e me livrei de ser levado à diretoria. Ano passado, eu estando com 24 anos, já estava quase me formando no curso de ator, e estava com um curriculum de peças até razoável. Um dia recebi o telefonema de uma jornalista que escrevia para um jornal local. Ela ligou dizendo que queria falar com um "jovem ator que se destacava no cenário artístico paraense", e falou um nome de forma muito rápida, achei que tinha entendido meu nome, e então desatei a falar sobre minha vida artística e já até estava brincando falando que eu estava quase para me tornar uma estrela. Depois de quase uma hora no telefone com ela, é que eu descubro que na verdade, ela queria era falar com meu irmão, que também faz teatro...

Estrelas, minhas estrelas...
Vou-te o brilho ofuscando
e a ti que não te mudas
no escuro vais ficando!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O pequeno pássaro confiante...



Dois ninhos de pássaros dividiam um mesmo galho, cada ninho com um único ovo. Em um deles nasceu um pássaro bonito e garboso, e no outro um pequenino pássaro frágil. Os dois cresceram juntos, até o momento em que se tornaram independentes. Voaram juntos do ninho no mesmo dia. Eram grandes amigos, aliás, grandes amigos não; eram grandes irmãos. Viviam numa espécie de protocooperação, o maior protegia o pequeno de predadores, e o menor retribuia conseguindo larvas de besouro tiradas com se pequeno bico de buraco das cascas das árvores, e da qual os dois se alimentavam. E assim foi durante muito tempo. Um dia o pássaro maior encontrou outro pássaro da mesma espécie que ele, e logo se tornaram amigos. Ele foi apresentar o novo amigo ao seu irmão. O novo pássaro achou estranho a amizade. Num determinado dia, quando o pequeno pássaro saiu para pegar as larvas para que eles pudessem almoçar, o novo pássaro falou para o outro que a espécie deles não tinham amizades com pássaros pequenos, e sim comiam pássaros pequenos, pois isso era o que faziam todos os falcões. Quando o pequeno pássaro chegou, trazendo com dificuldade no bico muitas larvas, o irmão dele sem pensar duas vezes rasgou sua carne com as garras afiadas, e o comeu junto com o outro falcão. Terminada a refeição, os dois voaram pelo horizonte, sem remorço e sem culpa alguma. Nem dois minutos de vôo se passaram, e o falcão que tinha comido seu irmão, caiu duro no chão. O que o matou não foi a culpa e nem o remorço, mas sim a traição, que ele não sabia que é capaz de dilacerar os corações de quem trai e de quem é traído. Porém, uma vez consumada a traição, nunca mais se pode voltar atrás. Nunca.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Dois mil inove em resumo


Fazendo um balanço tradicional (e inevitável)
do ano que me passou (e já pensando no que virá),
de fato como diz o slogan (aquele do Banco)
foi um ano de profundas inovações: (e renovações também)
veio o primeiro emprego (um que podia ser chamado assim),
com oito horas de ocupação por dia (nem tão ocupadas assim),
achei que deveria também ocupar o resto da vida (como se não estivesse)
então larguei uma relação normal, chata e monótona (era que eu achava),
pra me jogar noutra relação duas semanas depois (que era ainda pior),
então fui percebendo o quão antipático eu era (ainda sou um pouquinho).
Falando em o que sou (olha a pretensão falando alto)
decidi ser muito mais franco comigo (e menos com as pessoas),
por isso passei a falar bem menos (e escrever muito mais),
aí nasceu um certo blog (duma gravidez de risco),
que serviu de suporte (uma viga de aço praticamente)
para um monte de coisas que eu queria dizer (e acabei escrevendo),
então percebi que tinha uma habilidadezinha para escrita (continua a modéstia),
e com a boa escrita vieram pessoas (chegaram que eu nem percebi)
que ficaram tão próximas do coração (apesar da distância geográfica).
Então essas pessoas transformaram-se em amigos (o que não foi difícil)
e nas palavras que trocamos (as palavras transformaram-se em sentimentos)
fez-me aflorar novos sentidos (que na verdade eram antigos)
e assim re-descobri a força e coragem (e venci a tristeza e loucura)
então oito meses depois (mas que pareceram 8 anos)
voltei para a relação do início (ou reiniciei a relação),
já não achando mais normal, chata ou monótona (isso na verdade era eu),
por isso pedi desculpas (e as recebi também),
e me dediquei a tratar as feridas (que não eram poucas),
daquele Grande Amor (ainda bem que não era tarde demais).
Aí percebi a minha magalomania (só EU não tinha percebido)
com isso também descobri uma certa profissão (que virou objetivo de vida),
então esqueci a arte (pelo menos momentaneamente)
mas nem por isso deixei de aceitar (e fazer por conseguinte)
minha estréia no Da Paz e na tela grande (fechando com chave de ouro).
E assim, de forma concisa (ou seria confusa?)
termina aqui meu resumo... (outro só ano que vem!)

A todos que leram este blog desejo um feliz 2010. Que seja do prólogo ao epílogo deste novo ano um conto cheio de alegria, paz e saúde; e o clímax de sua historia seja felicidade e sucesso que você irá resumir num sorriso!
FELIZ ANO NOVO!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Tédio

Ele tem os olhos fixos, paralisados. A pele tem uma respiração própria, o suor tem o cheiro da inquietude. Freneticamente ele sacode as mãos, para, volta a sacudi-las baixa a cabeça. Agora o olhar é em todos os lugares que seu cérebro pode guardar algum tipo de distrair. Ele espera. Ora como se explodindo, ora com a paciência do resignado Jó, mas a espinha ereta como a de um samurai. Sua tez pulsando à excitação do porvir. Ele sente como se morresse a cada segundo que vai. Ele deseja como nunca o músculo bater em seu corpo como um ponto para ogum. Descansa os ombros. Quer sentir o leve. As pálpebras se dão ao cansaço:
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- Não sei! Fiquei entendiado de repente!
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O corpo inteiro cai pesado e desesperançoso. Mais um vez, a porta se fecha. Incredulidade, raiva e desconfiança. Depois de tantos dias de paz e guerra, de tantas horas e tantos momentos de torpor e esperança.
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"Não sei! Fiquei entendiado de repente!"
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Misturam-se os pensamentos latentes nos corpos correntes derramados na desertidão de cada compartimento. Água e terra, pedra e torrente. Medo, pesar, frustração, expectativas, desejos. Se esvaem as almas. Derramam-se no abandono, no esgotamento, na espera:
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"Não sei! Fiquei entendiado de repente!" se repete na mente dele.
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Raquel Leão & Ives Nelson

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Mito

Ele abriu os olhos. Assustado, não reconheceu o lugar. Um segundo depois lembrou-se. É esquisita essa súbita amnésia. E também é orgástica e extasiante. Alguém o tocou. Uma segunda mão também o tocou. Não via ninguém a sua frente. Ou preferia não ver. Uma terceira vez foi tocado. Escutou alguns dizeres, mas não compreendeu. Na verdade, até compreendeu, mas ignorou completamente a mensagem. Queria voltar naquele mesmo instante. Mas não sabia o caminho. As pessoas todas estavam preocupadas com o rapaz. Ele só pensava em voltar de onde acabara de chegar. Tentou uma, duas, três, quatro vezes. Sem resultado. Fechou os olhos. Sentiu um tapa no rosto. Abriu os olhos. Alguém o tocou mais uma vez. Irritou-se. Pôs-se de joelhos, com as mãos para trás e a cabeça abaixada num ângulo muito estranho. Começou a se sacudir e debater. Estava finalmente conseguindo achar o caminho. Uma mulher deu um grito. Por causa disso ele quase se perdeu. Porém se concentrou no objetivo. Os olhos ficaram fixo, os membros rígidos e a língua enrolada. Deu um solavanco e caiu de peito no chão, imergindo o rosto no próprio sangue. Conseguiu finalmente voltar. Um senhor idoso, compadecido, acendeu uma vela, e colocou ao lado do cadáver.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Da fome dá sede...


Heloiana estava com muita fome e um pouco de sede. Fazia meses que não comia nada, e unicamente caminhava por entre o gramado, e bebia água de fontes que ocasionalmente surgiam aqui ou ali, naquele jardim. Em alguns momentos ela se desesperava, e em outros estava calma e paciente, mesmo depois de quase dois dias andando pelo matagal. Passava por frutas maduras e suculentas que se exibiam nas várias árvores, mas não as comia, satisfeita somente com a água da fonte. Porém chegou um momento, em que as as fontes, as cachoeiras e os rios não mais surgiram pela floresta, porém a chuva, essa sempre vinha pela tarde. Heloiana ficou agora com muita sede, foram tantas horas sem tomar nada que até a fome passou. E então ela teve frio por causa de uma chuva noturna que não parava. Ensopada, desesperada, e ofusacada pela luz do sol, procurava no meio da floresta uma fonte para matar sua sede incontrolável, uma sede que já durava cinco minutos. Ficou com medo e se abrigou do dilúvio debaixo de uma bananeira. Enquanto não parava a torrente, se distraiu diversas vezes pela água escorrendo por entre um cacho de bananas madurinho. Nem comida, nem água e nem esperança. Não via nada, ou preferia não ver. Quem sabe?